
Grandes empresas na paranóia contabilística da contenção de custos, procuram implantar as suas fábricas de confecção dos produtos em zonas do 3º mundo, onde a mão-de-obra é barata e a teia legal para defender os direitos dos trabalhadores é quase inexistente. Assim estas empresas podem colocar os seus funcionários a trabalhar em condições degradantes, 12/14horas por dia, e ainda pagar salários baixíssimos.
Marcas conhecidas como a Gap, Nike, Pólo, Yves-Saint Laurent e muitas outras têm fábricas de vestuário nesses países e fazem esse tipo de exploração humana.
Em primeiro lugar, e não sejamos ingénuos, nunca se pode esperar de uma corporação económica que investe, controla e arrecada grandes somas de dinheiro, um comportamento adequado à moralidade vigente ou ao respeito pelo ser humano. Isso é devanear. Essas multinacionais são apenas Monstros de fazer dinheiro, a ética e a moral são sempre obstáculos para os seus intuitos. Não querem saber disso para nada. Por isso cabe aos Governos regularem e intervirem para que os trabalhadores não sejam vítimas desses "Monstros de fazer dinheiro a todo o custo". Deve-se responsabilizar ao Governo do Bangladesh, da China , ou da Tailândia, as sucessivas práticas de exploração laboral, por parte dessas empresas. Elas vão até onde a lei deixa ir, e mesmo quando ultrapassam a lei, cabe aos Governos usarem de meios para que haja uma intervenção adequada e correspondente punição. Exemplar e dissuasora de preferência. Tudo é política.
Contudo nesta questão que é muito sensível há um pau de dois bicos. Activistas no Primeiro Mundo protestam, boicotam( as marcas) e exigem o encerramento dessas fábricas. Os protestos são muito importantes porque, ainda que não na medida certa, ajudam a melhorar as condições de trabalho desses trabalhadores. Mas a exigência do encerramento dessas fábricas pode ser algo catastrófico para a vida daqueles proletários. No Bangladesh por exemplo, antes da implantação das ditas fábricas ( muitas nos anos 80 e 90) muitos desses operários estavam desempregados, iletrados e vulneráveis à fome crónica. Ironicamente foram essas "oficinas da escravatura moderna" que lhes salvaram a vida. Boicotando as marcas destas empresas ou exigindo o encerramento das fábricas o mais certo é enviarmos novamente estes homens e mulheres para a pobreza extrema.
Praticamente todos os países passaram por estas primeiras fases de industrialização. Também na Europa e nos Estados Unidos na altura da revolução industrial o trabalho era altamente precarizado. Daí evolui-se para menos horas de labuta, melhores salários, melhores condições no trabalho e mais protecção legal ( ainda que insuficiente). É o que certamente acontecerá em países como o Bangladesh, que estará ainda no primeiro degrau da escada do desenvolvimento. Estes trabalhadores que ontem estavam em zonas rurais e condenados à fome, hoje trabalham em zonas urbanas, já ganham o seu salário, ganham outras competências e conhecimentos, alguns certamente quererão ir à escola para aumentar as suas habilitações literárias, e isto resultará num aumento de consciência social, jurídica e até política. E daí virão mais reivindicações, mais exigências, uma melhor organização sindical, e mais pressing sobre o governo e estas empresas. Em não muito tempo estes países terão que obrigatoriamente sair desta fase primária de industrialização e avançar para outras que também garantam mais e melhores direitos e condições para os trabalhadores. É inevitável. Isto tudo para dizer que devemos protestar sim, mas é importante que saibamos que certos boicotes e exigências que fazemos sobre estas empresas podem ter consequências indesejadas que em vez de solucionarem só pioram o problema.
Texto escrito por Valete.