sexta-feira, julho 27, 2007

Reportagem com Valete in "Visão" nº721 de 28/12/2006



Rap de Intervenção

O álbum Serviço Público, de Valete, foi o murro no estômago do ano. Com um discurso revolucionário, o rapper da Damaia saltou do hip-hop underground para as playlists das rádios. A revolução está na rua?

Licenciado em Ciências da Comunicação, 26 anos, empregado no departamento comercial de uma empresa de recursos hídricos. O perfil de Keidje Lima não bate certo com a imagem de guerriheiro urbano, no mundo do rap underground, mas tal como acontece com a maioria dos justiceiros solitários da banda desenhada, o seu alter ego - Valete - pouco tem a ver com a normalidade do seu dia-a-dia. Os seus superpoderes? A música e as palavras.

«O meu chefe nem faz ideia deste meu outro lado...», comenta com o sorriso de quem desvenda um segredo. A ser verdade, isto so revela que o seu chefe não está atento. Nos últimos meses, o álbum Serviço Público deu a Valete uma inesperada exposição mediática e a sua música começou, finalmente, a passar nas rádios - o tema Os Meus esteve duas semanas consecutivas no 1.º lugar do top da Antena3. Com mais de 4 mil álbuns vendidos - «um número muito bom para um disco independente», sublinha -, Valete tornou-se num fenómeno de popularidade, muito para lá das fronteiras do circuito underground, onde já era visto como um dos mais talentosos MC's nacionais. O segredo parece estar na vertente política das suas letras. «Eu sou um dos filhos deste mundo que a luta inspirou (...) Sou o anti-herói que o povo aclamará», profetiza, no tema que encerra o disco, numa letra na qual são lembrados os nomes de Guevara, Gandhi, Arafat, Xanana, Malcom X, Luther King, Zapata e Amílcar Cabral.

O modo radical, violento até, como fala da sociedade, em rimas disparadas em todas as direcções, não deixa ninguém indiferente, mas deve ser descontextualizado: «Há miúdos que lêem as minhas letras de uma forma cega, não lêem a mensagem nas entrelinhas, e isso pode ser um problema. Já recebi mails a perguntar-me se estou disposto a pegar em armas para tomar a Casa Branca [risos]. Eu não sou contra esta sociedade, que tem coisas más mas também tem boas. Devemos é avançar, a partir das boas, para criar algo melhor. É nesse sentido que eu faço o meu rap de intervenção», explica.

No disco, ouvem-se excertos de intervenções públicas de Fidel Castro e Hugo Chávez. O discurso marcadamente político surge agora na conversa com a VISÃO. Despertou para a política durante o liceu, «por influência de um professor de Filosofia». Ainda pertenceu à Juventude Comunista Portuguesa, mas desistiu, pouco tempo depois. «Os jovens têm pouca participação nos partidos», justifica, revelando que, hoje, vota no Bloco de Esquerda. «Sempre estive muito próximo do Portugal do salário mínimo e dos imigrantes, conheço bem essa realidade», atira. Valete vive, há oito anos, na Damaia - antes morou em Benfica e na Amora - e fala com verdadeiro conhecimento de causa: «A criminalidade está muito ligada à pobreza, mas quem não conhece a realidade dos subúrbios não percebe isso. Os imigrantes continuam a não ter referências, nas quais se revejam. Não há um actor ou um apresentador de televisão negro. Se o traficante de droga é a pessoa mais bem sucedida do teu bairro, é isso que tu vais querer ser, quando cresceres.» No seu caso, isso não aconteceu. Filho único de um casal de são-tomenses, os pais obrigaram-no a estudar, e Valete ou, neste caso, Keidje, não os desiludiu, concluindo o superior na Universidade Independente. «Tirei o curso e arranjei um emprego estável, o que é bom, em termos de liberdade criativa. Assim, não tenho de estar dependente da ditadura das modas.»

As Editoras e os media são outro dos alvos das suas canções: «Já fui mais contra os media... Hoje, reconheço que é bom passar mais vezes na rádio e dar entrevistas para jornais e revistas. É um modo de chegar a mais gente.» No que toca à indústria da «música de plástico», não é tão brando: «Ainda não aconteceu a OPA das editoras sobre o hip-hop português, mas está para breve... Receio pelo futuro do hip-hop.» Para não ser mais uma vez mal interpretado, deixa cair alguns elogios às estrelas nacionais: Boss AC - «Tenho um grande carinho por ele» - e Da Weasel: «Arriscam bastante e é bom que vendam muito.» E também, claro, a Sam The Kid, que, em conjunto com Conductor (dos Buraka Som Sistema), produziu Serviço Público. «O Sam é diferente, é um verdadeiro compositor, que vai fazer história na música portuguesa e merece todo o sucesso.» Foi, aliás, com Sam The Kid que Valete deu os primeiros passos no hip-hop. «Tinha 16 anos e senti-me atraído por esse campo de liberdade de expressão infinito.» Afinal, mais do que ideologia, «o rap é revolta» e é exactamente por isso, defende, que é tão «apelativo junto dos jovens».

Por Miguel Judas para a revista "Visão"

Reportagem sobre Graffiti in "P2" (suplemento do jornal "Público") de 28/02/2007


A arte clandestina pinta ou suja as ruas?

As respostas vão da irritação ao silêncio. Há graffiti por todo o país, dos centros históricos aos subúrbios. E nós, que vivemos rodeados por eles, nem sabemos bem o que são.

Eles estão nas nossas paredes. São graffiti, são tags, mas também cada vez mais stencils, autocolantes, wheatpaste, arte de rua, intervenção urbana. Perguntar quais são arte e quais são lixo - qual a fronteira? - é procurar uma não-resposta.

"A pergunta é válida e há diferenças, mas é e será sempre subjectivo" avaliar um tag - o nome escrito na parede com letra estilizada - e decidir se é apenas uma garatuja que suja, um acto de vandalismo sobre uma superfície que não o merece, diz André Torgal, uma espécie de etnógrafo da arte urbana e dos graffiti.

A única coisa que pede um entendido como Torgal "é que não se rejeite tudo à partida". André Torgal é analista de sistemas informáticos, tem 23 anos e mantém a página sa.culturalivre.com, onde colige centenas de imagens do que vê na rua. "As pessoas estigmatizam os tags, como sendo vandalismo, em relação aos quais são contra. Mas os graffiti andam lá perto, umas vezes são arte, outras vezes são vandalismo."

Natxo Checa, director da galeria Zé dos Bois (ZDB), no Bairro Alto, em Lisboa, define os graffiti como "manifestações populares, oriundas sobretudo dos Estados Unidos, que passam a fazer parte do visual urbano" e que implicam alguma revolta, pela ilegalidade que os impregna. A crítica que se solta quando se vê uma parede toda assinada, de forma aparentemente anárquica, surge "porque toda a arte urbana é feita em propriedade alheia", o que está mesmo a pedir uma reacção, diz André Torgal. E, por vezes, é a mesma pessoa que, num "impulso", faz os murais que muitos admiram e desfigura com tags um edifício que todos querem proteger, históricos e até recuperados, esclarece.

Isto é o que dizem dois observadores convictos. Tudo seria mais fácil se "eles", os que fazem graffiti nas ruas de Portugal, explicassem o quê e porquê que fazem o que fazem. Mas após alguns contactos, a resposta foi sempre a mesma: os writers não gostam de falar.

Há em todo o país, do Bairro Alto, uma das zonas da noite de Lisboa, à Travessa da Cedofeita e Bairro da Bolsa, de Siza Vieira, no Porto, passando por praticamente todos os subúrbios e centros históricos de todas as cidades.

O boom
O graffiti, expressão integrada da cultura hip-hop vinda da Nova Iorque negra dos anos 80, mas que já existia antes, no punk dos anos 70; o stencil, a pintura com recorte que é da família dos murais de mensagem política; os autocolantes e colagens, formas de intervenção urbana que em Portugal são bem menos politizadas do que nos EUA ou no Reino Unido. Todos estão ao fresco, expostos como arte - ou não - na rua.

Lisboa e Porto assistem há muito a um crescimento da indústria dos graffiti, com lojas especializadas a vender tintas (em Lisboa há várias) e anúncios na Internet como este: "Executamos trabalhos de graffiti em qualquer espaço e dimensão. Fazemos workshops com crianças, pintamos telas, skates, pranchas, etc." Esta é a face legal dos graffiti, quando eles não são vandalismo, feitos com autorização ou por encomenda, como arte decorativa.

"Tags sem sentido"
Phil Baines, professor de Tipografia na célebre Central Saint Martins College de Londres, vocacionada para a moda e o design, esteve em Lisboa no Outono para as jornadas da Association Typographique Internationale, no âmbito das quais promoveu uma visita guiada pelas "letras" de Lisboa. Observador reticente da arte de rua e dos graffiti, Baines constatou o aumento da presença da escrita clandestina em Lisboa. Visitou a capital em 2003, em busca da herança tipográfica lisboeta, e encontrou e documentou "muitas imagens e stencil, sobretudo anti-EUA", por alturas da invasão do Iraque. Mas nesta última visita, o cenário era diferente. Em 2003 "não havia muitos tags" e agora, diz apontando para uma esquina da Rua Garrett, "há muito mais tags sem sentido".

É aqui que está o centro da questão: qual é a intenção de quem faz estas intervenções? Natxo Checa vive com a arte e com estas tendências e manifestações bem integradas no seu universo pessoal e profissional. Como morador de Lisboa e do Bairro Alto, mas também como galerista e comissário, visto que tem como missão "seguir todas as tendências de manifestação e representação estética". Mas Natxo Checa, que veio há anos da Catalunha para Portugal, também não gosta das pinturas que são feitas "sem um sentido" ou pensamento por trás e que enchem o "seu" bairro. Isso não quer dizer que não haja paredes cobertas com nomes caligrafados que não sejam belas aos seus olhos. André Torgal ajuda a complicar: "O tag faz sentido para quem o faz."

Absorção pela arte
Sem ser possível desenhar uma fronteira recta, direita e bem definida entre a arte pública, a intervenção política, o belo e o sujo, a verdade é que a rua é uma galeria ao ar livre há séculos. Não só esta é a mais antiga forma de arte do mundo, a "herdeira da pintura rupestre" (as palavras são de Torgal), como a "própria cultura institucional já a reconheceu". O "etnógrafo da arte urbana" dá como exemplo a valorização patrimonial dos murais do 25 de Abril. Natxo Checa acrescenta o caso-Zapata: os zapatistas de Chiapas, no México, têm nos murais uma forma de comunicação política.

E, de mansinho, a arte grafitada já está nos museus, apesar de os puristas dizerem que ela não pertence ao reino das fotografias, nem das galerias, mas apenas à rua.

Essa absorção pela "cultura institucional", o circuito das galerias e museus, pintou-se nos primórdios (anos 80) com as cores do americano Keith Haring (1958-1990), inspirado pelos primeiros writers de graffiti, e com o sucesso de Basquiat. Keith Haring, com "o tipo de intervenção que faz, pop e perceptível", nos anos 1980 da sida nos Estados Unidos, é um exemplo incontornável para Natxo Checa. Foi este tipo de abordagem que abriu caminho para a integração do mister na arte, para que os graffiti e a arte de rua fossem "recuperados e introduzidos no espaço galerístico".

Quando, em 2006, o Museu de Brooklyn, em Nova Iorque, integrou uma exposição de graffiti, a comissária Charlotta Kotik manifestou a sua esperança de que isso ajudasse a compreendê-lo - o graffiti. Os writers eram pessoas "com muito poucas hipóteses de serem ouvidas, por isso sabiam que iam receber atenção ao perturbar a ordem estabelecida", disse Kotik à TimeOut de Nova Iorque.

O artista Terrance Lindall, director-executivo do Centro de Arte e História de Williamsburg, bairro vizinho de Manhattan, corrobora essa ideia. "Na minha opinião, o graffiti é revolucionário e qualquer revolução pode ser considerada um crime. As pessoas que são oprimidas ou suprimidas precisam de uma saída, por isso escrevem nas paredes - é grátis."

Lisboa, Bairro Alto
Galeristas e comissários portugueses estão também a convidar a arte da rua a entrar portas dentro dos seus espaços de exposição, ou a concessionar espaços fora delas. Foi o caso do muralista português Rigo, que se dividiu entre o espaço na rua da Barroca, no Bairro Alto, e as ruas de Lisboa para uma retrospectiva do seu trabalho, a convite da ZDB. Já Vera Cortês (que tem uma galeria na 24 de Julho, Lisboa) colocou a street art de Alexandre Farto e Miguel Maurício na Galeria Promontório, para tentar responder, ou pelo menos provocar, com a questão "Pode uma arte "delinquente" adaptar-se ao contexto galerístico sem se subjugar aos formatos socialmente aceites?".

Sobre a situação no Bairro Alto André Torgal ri-se. "Quem se queixa [das pinturas] são as pessoas que intelectualizaram o Bairro", que migraram para os espaços deixados vagos pelas prostitutas e casas de fado vadio. "São os consumidores do Bairro Alto", que deixam os copos de plástico vazios de bebedeira no chão e nas janelas, que mantêm acordadas as crianças do bairro pela madrugada. "O que lá se passa é o reflexo de uma nova geração", diz André Torgal. "Não há nenhum sítio em Lisboa que esteja mais cagado, mais pixado do que o Bairro Alto", constata o director da ZDB, e isso deve-se ao facto de ser "um sítio de liberdade, de encontro social, que gera esse tipo de atitude".

O catalão Natxo Checa comenta que, ao contrário do que acontece em São Paulo, no Brasil, em que muitos writers procuram "um sítio singular e recôndito para inserir uma marca", nas paredes do Bairro Alto não há sigilo, há gritos. Os grupos vindos de fora de Lisboa "marcam o seu território" para todos verem. No mesmo espectro e nas mesmas ruas, "os produtos culturais mais interessantes que se encontram no Bairro são de stencil" e wheatpaste, "aqueles autocolantes grandes", que são como símbolos da ligação cada vez mais evidente destas intervenções ao design gráfico e às artes, diz o director da ZDB.

André Torgal acumula a experiência da cidade, dos comboios, do metro e da caligrafia-spray. E confessa que gosta "das coisas como estão". "É um espectáculo que vou admirando. Se não houvesse uma dose de repressão e clandestinidade na intervenção urbana, ela não era o que é." Com o mesmo olho crítico para o que vê nas paredes, Torgal vê as fotografias que publicamos hoje no P2: há trabalhos que são de artistas estrangeiros que passaram por Portugal, há outros feitos pelos próprios lojistas do Bairro Alto para marcar o território e evitar que seja atacado pelos artistas de rua, descodifica. E há coisas, como a inscrição "gang reais vândalos" num muro no Porto, "que não são nada".

Por Joana Amaral Cardoso para "P2" (suplemento do jornal "Público")

Sam The Kid (in "Jornal de Notícias" de 28/01/2007)


"Os discos são os meus filhos e quero que sejam bem tratados"

Aos 27 anos, Sam The Kid é um dos talentos mais seguros e admirados da nova música portuguesa. O rapper de Chelas lança agora "Pratica(mente)", o seu quarto disco, e confirma as expectativas que nele já se depositavam. São batidas e rimas com a métrica certa e um conteúdo que destila o lúcido espírito crítico e intervencionista. É um dos músicos do momento. Merece ser ouvido.
Sam The Kid vive em plena zona I de Chelas, ali a escassos metros do Liceu D. Dinis. O rapper desceu do seu sétimo andar num elevador onde alguém escreveu "Fuck Da Police" e encontrou-se com o JN, cá em baixo, junto a umas paredes com inscrições de vária índole como, por exemplo, esta "Sempre na vossa mira". Ao longe passam vizinhos que o cumprimentam com um assobio e o polegar erguido. Ei-lo, então, no seu habitat natural, e em discurso directo.

- Sempre viveu aqui em Chelas?
Sam The Kid - Sempre vivi aqui e não me vejo a sair daqui, sinceramente. Talvez só se me juntasse com uma rapariga. Mas nem com independência monetária sairia daqui. Um factor muito importante para mim é o ambiente - e gosto mesmo deste. Sair daqui matava um pouco a cena. Gosto desta coisa do bairro, de conhecer as pessoas e de toda a gente me conhecer. Até a cena da cuscovilhice é fixe, uma cena bonita. Deve ser um pouco deprimente viver nos arredores, em dormitórios, e isso acaba por afectar a personalidade.

- Este bairro é uma fonte de inspiração para a sua música?
Sam The Kid - Exactamente. Chelas é uma fonte de inspiraçao. Tenho músicas que falam de coisas concretas que só as pessoas daqui sabem do que estou a falar. Mas não faço só música para o bairro.

- Esta zona é conotada com o crime e tem fama de ser perigosa. Isso é a realidade?
Sam The Kid - Agora vivemos momentos mais calmos. As pessoas não querem arranjar problemas dentro da propria área. Antigamente, numa geração anterior à minha, até havia uma certa tensão racial aqui a Zona I era uma zona mais branca e havia aquela cena do "tu não podes vir aqui e eu não posso ir ali". Agora é muito mais à vontade. Mas não te sei dizer se é uma zona perigosa ou não, man. Acho que é uma zona tranquila. Agora é uma zona à maneira, não é nenhum gueto. É claro que há sempre coisas que acontecem: ainda ontem recebi o telefonema de uma amiga a dizer que o irmão tinha sido preso. Mas se calhar, ontem, em Cascais um gajo qualquer também foi preso, nao é?

- Há muito hip hop aqui em Chelas?
Sam The Kid - Há cada vez mais. Hoje em dia, no rap, as coisas estão mais massivas - há rap na televisão a toda a hora. É natural que as pessoas queiram fazer as coisas que estão mais na moda. Depois há pessoas que entram e desistem e outras que entram e evoluem. Tento estar atento. No outro dia fui aí a uma festa que até apareceu nos jornais porque deu tiroteio e o caraças...

- Tiroteio?
Sam The Kid - Estava lá bué de pessoal de Chelas mas era tudo amigo. Tu não vais armado para uma festa na tua área - vais para lá ver amigos. Quem veio armado foi pessoal que veio de fora, estás a ver? Depois falei com um puto que lá actuou e que me disse que era o primeiro concerto dele, mas que teve pena que tivesse acabado em tiroteio porque estava à espera que eu fizesse lá umas rimas.

- Os míudos mais novos do hip hop valorizam a sua opinião?
Sam The Kid - Tento sempre motivar as pessoas que começam a rappar. Há chavais que me mandam cds pelo correio e que me pedem a opinião. Sinto-me muito grato. E mesmo que as coisas estejam muito verdes, tento sempre motivar as pessoas. Primeiro digo as coisas boas e só depois digo as más. Por exemplo "Aqui estavas a ler e nota-se que não estás a ser convincente, as tuas dobras não foram muito precisas". Ainda anteontem estive aqui a ensinar um rapaz a mexer nos sons e a revelar os meus segredos. Não tenho problemas nenhuns em revelar as minhas técnicas.

- Há quem não revele?
Sam The Kid - Não sou um gajo como aqueles djs que tapam a etiqueta do disco para as pessoas não saberem o que ele está a passar - antes havia um pouco essa cena, essa cultura do segredo e que eu não respeito nada. Quero explicar ao outro como faço para depois ele fazer melhor do que eu e eu aprender com ele. É assim que a arte evolui. No meus álbuns estreio sempre pessoal que grava as primeiras rimas. Quando o pessoal é bacano, eu sinto iá.

- O hip hop português é um movimento unido ou existem rivalidades?
Sam The Kid - Em geral, o pessoal dá-se bem. Pode haver um ou outro atrito mas isso é normal em todas as áreas, não é só no hip hop.

- As suas rimas são certeiras e nota-se que há ali muito treino e dedicação. Escreve todos os dias?
Sam The Kid - Estou sempre no modo esponja, ou seja estou sempre a absorver. Nunca desligo o botão nem me fecho para a criatividade. Mas até faço mais batidas do que rimas.

- E lê muita poesia?
Sam The Kid - Tenho uma problema, não leio livros compulsivamente. Gosto mais de ouvir poesia do que de ler poesia. Se leio poesia, não sei se estou a ler bem, estás a ver? Se for poesia bem recitada - como o Mário Viegas ou o Ary dos Santos -, parece que se transmite mais emoção. Interesso-me bastante pelo Mário Viegas e gravo tudo o que apanho dele.

- Nas suas letras nota-se uma preocupação em salvaguardar a sua integridade artística. A indústria já tentou manipular a sua música?
Sam The Kid - Não, nada. Tenho liberdade total. Eu é que mando. Pode parecer de menino mimado mas sou assim por exemplo, sou eu que escolho o meu reportório e o single. É assim que vejo a cena: os meus discos são os meus filhos e quero que eles sejam bem tratados. E depois, nós, com o tempo, vamos aprendendo várias coisas: e ficamos cada vez mais frios. Se não tiveres manager podes ser engrupido. E um gajo fica a pensar: mas por que é que só estou a receber o dinheiro depois do espectáculo? É que há muito o cliché do organizador desiludido que diz que estava à espera de mais gente - mas tenho que sujeitar-me a essa merda só para ser um gajo simpático e bacano? Não: dá-me a guita antes. É que um gajo já foi enganado. E isso não é ser ganancioso.


O novo disco de Sam The Kid deve ser ouvido por todos aqueles que costumam torcer o nariz a tudo o que seja hip hop. Há uma série de preconceitos que podem ser detonados com a audição de "Pratica(mente)". Um deles é este: o rap não é sinónimo de música simplista feita por miúdos de boné e roupas largas que cantam rimas básicas temperadas por "bués", "iás" ou "yôs" enquanto tentam surripiar o telemóvel do transeunte. Nada disso: mesmo não sendo eruditas, as letras e as rimas de Sam The Kid, retratam a visão lúcida de uma geração que não se acomoda na inércia ou na apatia. O artista não tem problemas em desatar a apontar ao dedo à própria classe de músicos, nomeadamente a todos aqueles que comprometem a sua arte em busca de mais dinheiro. Para mais, todas as rimas surgem em cima de tapetes instrumentais ricos em subtilezas e irrestíveis no apelo à dança.

Por Cristiano Pereira para o "Jornal de Notícias"

quinta-feira, julho 26, 2007

Common sense Lança novo album!


Finding Forever” é o sétimo álbum de Common, rapper, escritor e actor de 35 anos, natural de Chicago. A sua música é ligeiramente mais vocacionada para o público adulto, ideal para quem procura aquela poesia lírica e sonora, ausente na maioria dos sucessos urbanos que tanto atraem as camadas mais jovens.

Common abriu o ano de 2007 com dois novos temas, “A Dream” com a colaboração de Will.I.Am e “Play Your Cards Right” com Bilal. O primeiro tema está incluído na banda sonora do filme “Freedom Writers” e o segundo na banda sonora do filme “Smokin’ Aces”, no qual Common também participa.

Depois de muita especulação e sucessivos adiamentos, “Finding Forever” vai estar finalmente disponível a 31 de Julho deste ano.

“The People” é o primeiro single, foi produzido por Kanye West e conta com a participação de Dwele, músico e cantor de Detroit. “The Game”, o segundo single, também foi produzido por Kanye West e contem scratches de DJ Premier. “Driving Me Wild”, com Lily Allen e mais uma vez com Kanye West na produção, será o terceiro single deste álbum.

Devo Springsteen elaborou a produção do tema “Misunderstood” inspirando-se no clássico “Dont Let Me Be Misunderstood” de Nina Simone. Will.I.Am foi o responsável por “I Want You” e os créditos da produção de “So For To Go” irão ser entregues a J Dilla (1974-2006). Kanye West produziu as restantes faixas. O pai de Common cumpre a tradição ao fechar o álbum com alguns minutos de Spoken Word.

“The Game”, “Misunderstood” e “Break My Heart” são até ao momento, os temas que mais me inpressionaram.

Finding Forever (31 de Julho 2007)

01. Intro
02. Start The Show (feat. Kanye West)
03. The People (feat. Dwele)
04. I Want You (feat. Will.I.Am)
05. Southside (feat. Kanye West)
06. Driving Me Wild (feat. Lily Allen)
07. So Far to Go (feat. D’Angelo)
08. Break My Heart
09. Black Maybe (feat. Bilal)
10. The Game (feat. DJ Premier)
11. Misunderstood
12. Forever Begins (feat. Bilal & Loonie “Pops” Lynn)

The People (feat. Dwele)



The Game (feat. DJ Premier)

quarta-feira, julho 25, 2007

PJ encerra três sites portugueses de downloads




Três sites portugueses na Internet que serviam de plataformas para pirataria informática e troca de software foram encerrados pelas autoridades nacionais numa operação inédita que afectou 200 mil utilizadores, anunciou hoje a Polícia Judiciária (PJ). Os sites www.zetuga.com, www.zemula.org e www.btuga.pt foram encerrados no decurso de uma operação conjunta da PJ e da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), realizada terça-feira, que visava evitar a "reprodução de conteúdos protegidos por direitos de autor através da Internet, dando cumprimento a seis mandados de busca, em Ovar, Leiria e Lisboa".
Os sites eram utilizados preferencialmente por cidadãos nacionais, já que permitiam que fosse apenas contabilizado tráfego de download e upload nacional, cujos limites mensais de consumo são muitos grandes na maior parte das operadoras portuguesas de Internet. "Os gestores dos sites em questão, entres eles um elemento da PSP, foram constituídos arguidos e sujeitos a termo de identidade e residência", refere a PJ em comunicado.

segunda-feira, julho 16, 2007

Jorge Palma - Video do Single "encosta-te a mim" retirado do Album "voo Nocturno"

Jorge Palma Lança Novo Album.



Jorge Palma está de volta três anos depois de “Norte” com um “Voo nocturno” especial. O seu melhor disco, na sua própria concepção.

Um disco intimista, construído com arranjos simples, gravado apenas pelo Jorge e os seus “demitidos”, é um disco quase acústico. Um convite a um eco social.“Encosta-te a mim” é o single do álbum. Quanto a mim, não sendo a canção mais apelativa é uma bela balada de amor, típica de um Jorge maduro e pronto para finalmente, não só, se dar com toda a gente, mas se dar a alguém...

Jorge maduro, de bem com a vida e a recomendar-se, a mostrar o que de melhor sabe fazer. É sempre um prazer tê-lo a voar connosco.


Alinhamento:
1. Encosta-te a mim
(Jorge Palma)
2. Voo Nocturno
(Jorge Palma)
3. Rosa Branca
(Jorge Palma)
4. O Centro Comercial fechou
(Jorge Palma)
5. Olá (cá estamos outra vez)
(Jorge Palma)
6. Abrir o sinal
(Jorge Palma)
7. Gaivota dos Alteirinhos
(Jorge Palma)
8. Casa do Capitão - instrumental
(Jorge Palma)
9. Vermelho Redundante
(Carlos Tê/ Jorge Palma)
10. Quarteto da Corda
(Jorge Palma)
11. Finalmente a Sós
(Jorge Palma)
12. A Velhice
(Samuel Beckett/ João Lagarto/ Jorge Palma)

quarta-feira, julho 11, 2007

Pimp the System



Tive acesso a um estudo de mercado sobre a música portuguesa e que certamente também foi consultado por várias editoras, rádios e canais de música. Nessa sondagem que abrangeu pessoas de classes, idades, ocupações, zonas, raças e sexos diferentes, o meu nome estava referenciado na categoria de HipHop, como um dos mc's portugueses que gozava de maior preferência por parte do público. Para meu maior espanto, Halloween também estava nessa lista dos rappers mais “almejados”, estando até à frente de outros mc's e grupos de HipHop com exposição massiva nas rádios e nos canais de televisão. Surpreendente e extraordinário porque o Halloween tem apenas um álbum editado, não tem nenhum clip a rodar nas televisões, nem nenhum som na playlist das rádios mais conhecidas.
Para a MTV, por exemplo, é fundamental conhecer esse tipo de estudos, e principalmente os resultados na categoria de HipHop, porque o HipHop para além de estar na moda também foi o estilo musical que nos últimos anos mais cresceu junto das comunidades jovens (publico alvo da MTV). Hoje mais do que nunca eles são forçados a ter HipHop na sua programação.
Um videoclip de uma música hardcore, áspera e subversiva como “Anti-Heroi” entra na Hitlist da MTV não porque se adapta aos modelos alegóricos do panorama audiovisual mainstream, mas sim, porque existe hoje uma agremiação grande de jovens que tem vindo a crescer com o “hiphop tuga” e que exerce uma pressão indirecta sobre estes centros de divulgação musical, obrigando-os aos poucos a transformar a sua grelha, e a passar também os artistas mais reconhecidos nas “ruas” em vez de só passarem os artistas formatados e impingidos pelas editoras majors.
Nesta altura em que no HipHop português já se notam vários vestígios de plastificação musical sustentada por editoras e pela comunicação social, é importante que os verdadeiros mc's, e principalmente aqueles que têm uma mensagem mais interventiva e progressista usem o conceito “Pimp the System”. É importante que saibamos tirar proveito da “moda do HipHop” e destes espaços maiores de promoção de corporações multinacionais como a MTV, para disseminarmos a nossa ideologia e fazermos uma digna representação do HipHop. A ideia é: Revolucionar usando os meios do Sistema. Pimp the System.
Em diferentes alturas artistas não estandardizados como Dead Prez, The Roots, Common, Erykah Badu, Mos Def etc, conseguiram uma rotação significativa na MTV americana, chegando assim às massas e podendo assim educá-las politicamente, socialmente ou musicalmente. Eu próprio também fui alvo desse processo educativo. Hoje afirmo sem incertezas que eu seria uma pessoa totalmente diferente se nos anos 90 não fosse um espectador assíduo do “Yo MTV Raps” ( falo do antigo “Yo”, não dessa patetice que dão agora ). Aqueles clips, aqueles artistas, aquelas entrevistas, aquelas jam sessions causaram em mim uma mudança irreversível. Acredito que para melhor.
Por tudo isto, digo que é indispensável que promovamos as nossas músicas, usemos todos os canais possíveis, é necessário que cheguemos ao máximo número de pessoas, mas que não caiamos na armadilha de nos adaptarmos ao que eles querem que o HipHop seja. O HipHop somos nós e não o que eles querem que seja. É suicida promovermos a nossa cultura com o “basiquismo” à la Mundo Secreto. A música já está cheia de coisas iguais, coisas óbvias, coisas fáceis. A música está cheia de anti-arte. Vamos promover HipHop na MTV, na Sic Radical, na TVI onde quer que seja, mas com skills, com criatividade, com complexidade, com arte. Vamos promover o HipHop com HipHop.






Texto escrito por Valete.


para mais informação visitar o blog da Horizontal Records.